RECORDAR É VIVER!
Nos idos de 1950/1960 (em 1955 eu tinha 15 anos), comecei a gostar de rádio. Residindo em Campina Grande, linda cidade paraibana, gostava de frequentar a Rádio Borborema, onde assistia com muita frequência, o programa Domingo Alegre, apresentado pelo locutor Leonel Medeiros. Era maravilhoso ouvir o conjunto regional com os grandes músicos da época, entre eles Arlindo do Piston, o pianista Jaime Seixas e José Maria ao violão, todos regidos pelo maestro Arnóbio Araújo. Por outro lado, a Orquestra Borborema regida pelo maestro Nilo Lima, dava um show de apresentações. Em um dos bingos patrocinados pelo Café São Braz, fui contemplado com uma cama de solteiro Faixa Azul, com colchão, produtos São Braz e uma foto da Miss Brasil, Marta Rocha.
Mas a Rádio Borborema tinha outros grandes sucessos. E como esquecer o Programa Retalhos do Sertão, apresentado por Juracy Palhano e levado ao ar pela manhã, de segunda a sexta! O engraçado capitão «Mané Coió» fazia a alegria de todos, com suas saudáveis brincadeiras. Os repentes ficavam por conta dos poetas José Gonçalves e Cícero Bernardes, carinhosamente apelidados de «Cupim» e «Coruja», pelo próprio capitão Mané Coió.
As disputas entre os cordões azul e encarnado nos famosos pastoris, era algo extraordinário. Palmeiras Guimarães e Leonel Medeiros comandavam com muita perícia esta «guerra » sem qualquer maldade. Eu gritava em defesa do cordão azul, o meu preferido e que sempre era o grande vencedor. As pastorinhas eram lindas e isso muito contribuía para que a disputa ficasse mais acirrada e mais gostosa.
Em sua programação bastante diversificada, a Rádio Borborema também se preocupava com o bom humor e levava ao ar a famosa «Escolinha do Professor Nicolau», que contava com os interessantes alunos Chico, Alfreu, Bobozinho e Linda, a única mulher da turma e a mais inteligente. A turma sempre entrava cantando: «Na escola do Nicolau, nóis vai desaprendê, alegre-gre-gre, cantando-do-do, (...); Salve a escola ideal do ignorante Nicolau (do Nicolau), quem não quisé aprendê, no fim do ano leva pau (pararapapau, pa-pau )». Em outros horário, os ouvintes se deleitavam com «O Edifício Balança mas não Cai», mais um líder em audiência.
Mas nem pensem que as manhãs dos domingos passavam em branco! As crianças tinham o seu espaço através do programa «Clube do Papai Noel», com muitas brincadeiras infantis e distribuição de brindes. Lembro de uma música que muitos cantavam na época: «Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho, vuou, vuou, vuou, vuou; a menina que gostava tanto do bichinho, chorou, chorou, chorou, chorou...»
Outros extraordinários programas apresentavam cantores que iniciavam sua carreira no mundo artístico. E foi justamente em um deles que surgiu Genival Lacerda, na época um jovem franzino, mungangueiro, que imitava Jackson do Pandeiro. Foi ali que vi pela primeira vez a cantora Marinês, surgindo como uma grande promessa.
A Rádio Borborema tinha o seu próprio «cast» com cantores e atores. Era saudável ouvir as lindas vozes de Silvinha Alencar, Maria das Neves, Maria do Carmo, Geraldo Andrade e Ronaldo Soares, além dos irmãos Gilson e Geiza Reis. As novelas «O Anjo Negro» e «Maria Alaô» e outras eram levadas ao ar, com interpretações impecáveis dos atores da casa, entre os quais destacavam-se Epitácio Soares, Temístocles Maciel e o menino Prodígio Benjamin Blay.
O auditório da Rádio Borborema era aconchegante e o público fazia o show com sua participação nas competições. Uma delas era o «Calouros de Improviso», dentro de «O Domingo Alegre», que revelava grandes cantores. No campo da cultura, lembro-me orgulhoso de «O Céu é o Limite». E uma participação que marcou muito foi a do poeta Ronaldo Cunha Lima que ganhou um grande prêmio, no final, respondendo sobre a vida do poeta Augusto dos Anjos.
No palco da Borborema, pertencente aos Diários Associados, do saudoso Assis Chateaubriand, desfilaram grandes astros da época. E como esquecer o auditório de pé aplaudindo Ângela Maria, Augusto Calheiros e Vicente Celestino!!! Ah, quantas saudades das rádios verdadeiras: Borborema, Caturité, Cariri!!! Ah, Campina Grande dos grandes artistas! Como era bom ouvir o inimitável Palmeiras Guimarães, narrando jogos no Estádio Presidente Vargas. Com certeza os trezeanos da época devem lembrar de jogadores como Bola Sete, Pedro Negrinho, Urai, Josias, Harry Carey, Letácio e outros.
Quem não ouvisse as afinadíssimas cantoras Maria das Neves, Silvinha de Alencar e Maria do Carmo nos programas dominicais, tinha uma grande chance de ouví-las em um horário nobre. Era a vez do programa «A Estrela do Meio Dia». Não tenho receio de afirmar que 99% das residências ligavam seus rádios naquele horário.
Quem duvida que programações como aquelas não fariam sucessos hoje? Reviver programas humurísticos como «Edifício Balança mas Não Cai» seria algo extraordinário. Eu, como empresário, arriscaria esta volta ao passado e tenho plena convicção de que os ouvintes se acostumariam, ao ponto de trocarem os programas enlatados pelos programas reais.
Naquela época, eu chorava pela cantora Emilinha Borba e lembro que fiquei feliz da vida quando ela saiu na capa da Revista do Rádio. Era a época de grandes nomes da música popular brasileira: Ivon Curi, Linda Batista, Dircinha Batista, Os Demônios da Garoa, Trio Irakitan, Augusto Calheiros, Carlos Galhardo e outros. Época das músicas sem maldade e que tocava dentro da alma, servindo de lenimento para os corações apaixonados.
Encerro estas reminiscências citando alguns integrantes do «cast» da rádio Borborema, a mais querida de Campina Grande: Juracy Palhano, Leonel Medeiros, Hilton Mota, Palmeiras Guimarães, Ari Rodrigues (locutores); Nilo Lima e Arnóbio Araújo (maestros); Jaime Seixas, Arlindo do Piston, Zé Maria, Abdias (músicos); Ronaldo Soares, Gilson Reis, Geisa Reis, Geraldo Andrade, Silvinha de Alencar, Maria das Neves, Maria do Carmo, Genival Lacerda (cantores); Fernando Silveira, Temístocles Maciel, Benjamim Blay, Genésio Soares (atores); José Gonçalves e Cícero Bernardes (poetas repentistas). Era uma equipe de luxo, relíquia de um passado glorioso e uma coletânea de talentos.
HOJE, SÓ NOS RESTAM AS SAUDADES!
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